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A vida de um soropositivo | Entrevista com Salvador Campos

Por: Fellipe Medeiros

 

Salvador Campos Corrêa, é um psicólogo, escritor e voluntário na Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS(ABIA) desde 2013. Em seu trabalho na Ong, o psicólogo se dedica a ajudar a população de todas formas em busca de direitos justos e informações sobre a doença, atuando na área de treinamento e capacitação.

Autor do livro“O Segundo Armário: diário de um jovem Soropositivo”, nele ele compartilhou diversas historia pessoas de como foi o processo de lidar com a doença, de forma que pudesse encontrar algum conforto para ajudá lo a passar pelo momento de descoberta e aceitação.
Como uma“pessoa vivendo com HIV”, como ele prefere ser chamado, Salvador esclareceu dúvidas frequentes sobre a doença e a forma de lidar caso alguém se contamine ou tenha ligação com alguém infectado. Confira:

Perguntas:

Como é sua vida?

R.: Oi Felipe Boa Tarde, Meu nome é Salvador Correia, eu sou psicólogo, atualmente coordenando a área de treinamento e capacitação da ABIADS, que é a associação brasileira interdisciplinar da Aids, uma Ong fundada por Betinho em 1987 como forma de criar sinergia entre pessoas que pensava em estratégia para lutar contra a epidemia de HIV naquele cenário da década de 80, que a morte era quase que uma realidade para a maior parte das pessoas que se infectaram, e estou nessa frente aqui na ABIA há mais de 5 anos. Com relação a minha formação, eu sou psicólogo como eu falei, a minha área de especialização foi no campo de saúde coletiva e também fiz mestrado em saúde público na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), com tema sobre a homofobia, então sempre tenho estudado no decorrer da minha trajetória acadêmica assuntos ligados a diversidade sexual, gênero e também HIV.
Você trabalha na ABIA há mais de 5 anos, como é o seu trabalho na Ong? 
R: Meu trabalho na associação é na área de treinamento e capacitação, ofertando cursos, seminário, palestras, ações educativas que envolve as mais variadas formas de se fazer treinamento e capacitação com metodologias dinâmicas, participativas como teatro, dinâmicas de grupos e outras várias formas de aprendizagem através de vivências para profissionais da saúde, pessoas do movimento social, e também empresas, basicamente essa é a forma de atuação da área que eu to coordenando, e agora a gente vai ter um projeto longo em que vamos fazer seminários, serão 4 seminários no brasil na região, sul e sudeste.
Como surgiu a oportunidade de trabalhar ?
R: A oportunidade de trabalhar na ABIA, surgiu em 2013, eu descobri meu diagnóstico em 2011, e desde então eu quis trabalhar na área. Na época eu trabalhava com saúde mental, ou seja, com pessoas com transtornos mentais grave, pessoas consideradas loucas, e aí eu comecei a me candidatar em vagas da sociedade civil, trabalha por quase 2 dois anos em uma ong chamada BemFam na área de saúde sexual e saúde reprodutiva, direitos sexuais, e direitos respectivas. Aí quando foi em 2013, abriu um edital, eu me inscrevi e passei. 
O que te motiva a fazer parta da associação?
R: Seguramente, a luta contra o HIV, principalmente pela ABIA ser uma instituição referência, pioneira e sem sombra de dúvida uma instituição líder na resposta contra a epidemia, além de lutar pelo acesso ao medicamento a teste e todas essas ferramentas biomédica, importante para o controle da epidemia, ela luta desde o início pelos garantia dos direitos humanos das pessoas vivendo com HIV e dos grupos mais afetados pela epidemia, como os jovens gays, as prostitutas, pessoas trans e então é muito bom fazer parte desse grupo, e sem sombra de dúvidas é uma voz importante no cenário atual da epidemia.
Como as pessoas chegam até a Ong? Como elas fazem para se beneficiarem? 
R: Então, as pessoas que procuram ABIA, procuram justamente para poder participar, se relacionar com a causa e também se beneficiar porque a ABIA atua em várias frentes. O carro chefe da instituição é a luta por defesa e garantias de direito, que a gente no movimento social chama de advoca-se, a gente faz ações em diversas instâncias, tanto no campo do diálogo como poder executivo quanto no poder legislativo e judiciário buscando incorporar políticas públicas especialmente no campo da área da saúde, mas não somente. Para garantir o direitos vida das pessoas vivendo com HIV, com o tratamento justo com acesso ao serviço de saúde de boa qualidade, então nossa luta tem sido essa durante esses anos. Nós conseguimos nesse período ter várias conquistas como incorporação de medicamento nos sus, garanta de testagem para todo mundo, políticas específicas para pessoas que são mais vulneráveis à epidemia do vírus, então esse é sempre o diálogo importante, temos sempre pautar essas questões que continuamente são ameaçadas por forças conservadoras que emergem, principalmente nesse contexto que a gente vive. Além do Advoca-se em defesa e garantia dos direitos, a ABIA também tem projetos que atuam diretamente com a população beneficiaria, a população alvo como por exemplo um projeto voltado para a diversidade sexual e direito entre jovens que tem roda de conversa, bate papo, seminários e ações que dialogam diretamente com a população mais afetada pela epidemia, que são jovens gays, pessoas trans, homens e mulheres, pessoas idosas, enfim. 
 
A ABIA têm projetos voltado a educação da sociedade, como isso é feito?
R: Sim, a ABIA tem a atuação em treinamento e capacitação, a gente faz treinamento e capacitação em serviços de saúde, como fizemos recentemente na clínica de família na comunidade Pavão-Pavãozinho, a gente tem cursos de primeiro passo, que são voltado para educar a sociedade para seguir organizada acerca dos temas ligados a medicamento a patentes de medicamentos, para garantir e facilitar esse acesso a esses medicamentos e capacitação voltada à diversidade sexual, a prevenção, aos novos conceitos de prevenção que é o que chamamos de de prevenção combinada, uma prevenção ampliada, e a gente trabalha um pouco esses temas.
Em relação aos trabalhos sobre diversidade sexual e direitos dos jovens, como são feitos?
R: Normalmente existe divulgação das rodas de conversas que são feitas através das redes sociais e criação de eventos no facebook, e são jovens da periferia daqui do Rio de Janeiro, pessoas vivendo com HIV atuantes do movimento social LGBT, pessoas trans. Basicamente é essa a população que mais participa do projeto, e geralmente os participantes são do Rio de Janeiro. Os outros projetos da abia acaba tendo também uma repercussão nacional, que são envolvendo a inclusão de políticas pública pelo estado, esse projeto é uma intervenção mais direta, mas também temos ações em outro estado, temos em são paulo, no sul também já tivemos. 
Vamos agora falar de você, fora da Ong, como é sua vida Salvador?
R: Então a minha vida, é uma vida comum, hoje em dia eu faço todas as atividades de uma pessoa que não tem HIV também faz, nado, malho, na verdade eu não malho tanto, deveria ir com mais frequência (risos), mas eu faço praticamente todas as atividades, me divirto saio, bebo socialmente. Então assim, hoje a gente tem uma qualidade de vida muito similar a uma pessoa que não tem o vírus, obviamente a gente tem que tomar o medicamento todos os dias, ter alguns cuidado com relação a isso especificamente, de não se esquecer, de colocar um alarme, porque isso poderia ter um impacto ruim. E tem uma questão muito grande que é a do preconceito e discriminação que é ainda é forte, por um lado a gente avança no vírus biológico, mas o vírus que o Herbert Daniel, o grande ativista do movimento social na década de 80, 90 dizia, “existe ainda um vírus ideológico muito forte”, que é um vírus que afeta muito as pessoas com HIV, o estigma e discriminação ainda são muito fortes, principalmente no meio LGBT, eu já tive algumas experiências em aplicativos de relacionamento por exemplo, de revelar a sorologia e as pessoas me bloquearam e não nos falar mais, já fui discriminado por dentista, médico, em consulta. Então essa ainda é uma realidade que a gente vive. Agora eu vou fazer algumas perguntas pessoais, caso não queira responder fique a vontade de me repreender. 
Como as pessoas lidam quando você conta que é soropositivo? 
R: No início, quando eu me descobri com HIV foi muito difícil em relação aos meus amigos, era sempre um desafio falar para uma pessoa, era como se eu tivesse que sofrer todo o sofrimento da pessoa dessa descoberta, é muito doloroso esse processo de contar pros amigos no momento inicial, com relação a relacionamentos, eu já tive um fim de uma relação de namoro em função disso, meu namoro estava muito bem obrigado, e eis que quando eu resolvi falar acabou a relação, foi muito doloroso.
Apesar de todas essas dificuldades, como é são as suas experiências vivendo sendo portador do vírus?
R: Então, a minha experiência como uma pessoa vivendo com HIV, a gente até prefere o termo uma “Pessoa vivendo com HIV” do que portador, porque portador, as vezes traz a ideia de que você ta portando um molde ou algo assim. No movimento social nos falamos mais pessoas vivendo com HIV, a minha experiência vivendo com HIV é sempre uma experiência que tem sempre como o meio na relação, interferências ligado ao estigma e a discriminação. 
As pessoas ainda não sabem lidar com pessoas que vivem com HIV, você disse que já sofreu discriminação, como foi?
R: As pessoas deixam de se relacionar conosco não só amorosamente mas também sexualmente em função ao vírus, ainda hoje, por outro lado tem também pessoas que conseguem se desconstruir, ampliar sua visão sobre o tema e estabelecer de fato uma relação, quebrando seus próprios preconceitos acerca da vivência, e muito das vezes nem sabem o que tem de mais novo no campo da prevenção. Para você ter uma ideia, hoje eu não transmito mais o vírus porque minha carga viral está indetectada desde 2012, existe coisas e informações que precisam ser mais difundidas de forma que ajude o combate à discriminação e o estigma. 
Sei como foi difícil revelar para os amigos que você vive com a doença, mas e para família, como foi ? 
R: Com relação a família, acho que o momento mais difícil foi o contar, hoje já não é mais porque todo mundo sabe, principalmente depois que eu falei abertamente lançando o livro, então o início foi um impacto principalmente para minha mãe que sofreu muito com esse diagnóstico, minha irmã também no início, e depois eles foram entendendo que não é bem esse monstro que as pessoas pintam, e que pintavam na década de 80, ou ainda continuam pintando um pouquinho. Estamos em 2018, muita coisa evoluiu. 
Mas hoje, o que é necessário para que os preconceitos da década de 80 não possa ser repetidos? 
R: Atualmente não é de fato tão assustador e aterrorizante como era quando as pessoas morriam por não ter forma de tratamento, e mesmo naquele momento que as pessoas morriam por não ter formas de tratamentos, a aposta na solidariedade, a aposta na empatia, a aposta na capacidade de se colocar no lugar do outro, de sentir a dor do outro como se fosse a sua, fez com que a gente conseguisse criar um programa de referência nacional, e não só nacional, uma resposta global à Aids com medicamento eficaz em controle da epidemia, então é muito importante ter isso em mente. Além de psicólogo, você é escritor. 
Como foi o processo de criação do seu livro “O Segundo Armário: diário de um jovem Soropositivo” ?
R: O Livro surgiu como uma forma de externalizar os sentimentos, eu fazia um diário virtual, um blogger, e ali eu contava passo a passo todos os meus sentimentos que eu sentia a cada momento do diagnóstico, e ainda hoje eu faço diários mas de outros momentos sobre outras questões. Escrever é uma forma de externalizar o que se sente, de organizar pensamentos, de estar um pouco mais presente e de colocar no papel as suas dores e tirar um pouco do seu coração, como toda arte faz. E essa foi a forma como eu encontrei para poder catalisar o processo do meu diagnóstico deixando mais leve, ou pelo menos deixar mais suportável nesse momento inicial. E aí eu peguei os textos deste blogger e publiquei em um livro, um diário na verdade em forma de livro, que está gratuito para baixar no google play, app store, amazon e também pode ser comprado no google pesquisando por “Segundo armário – Autografia”, autografia é a editora que publicou o livro. Estamos vivendo um momento ameaçador a todas as lutas do movimento LGBT com um candidato a presidência totalmente preconceituoso. 
Você se preocupa com alguma mudança que possa acontecer em relação aos direitos que a Ong trabalham ? 
R: Bem, nós vivemos em um contexto atualmente político muito delicado, com grandes ameaça aos direitos sociais, direitos sexuais, direitos reprodutivos, direitos em várias esferas ameaçadas principalmente as tripulações afetadas pela epidemia de HIV, é muito delicado você não conseguir ou poder ser o que você é por uma tentativa de normatização. Porque esse candidato representa o enquadramento das pessoas em um padrão que não nos cabe mais, que já caiu por terra, a sociedade não cabe mais nesse padrão que ele tenta enquadrar, nos somos diversos graças ao universos, e por isso é muito desafiador olhar para esse conservadorismo gritante tentando ressurgir, não há mais espaço para ele, nós seremos resistência o tempo em que for necessário ser. 
Como a família e amigos precisam lidar caso algum ente querido revele que é soropositivo? O que é mais importante nessa hora ? 
R: O principal passo de uma família, amigos e parentes que descobre ou entram em contato com um ente soropositivo, é se informar, tentar não culpabilizar de forma alguma pelo diagnóstico, que normalmente é uma tendência natural de responsabilizar a pessoa. Evitar falar coisas do tipo “Você não usou camisinha, por que você fez isso?, você não se ama?, você não tem amor à vida?”, evitar esse lugar da culpa porque é um lugar que gera uma dor muito forte, é comum as pessoa que descobre o diagnóstico já sentiram essa culpa naturalmente, então o mais importante nesse momento é se informar, acolher a dor do outro, ser simplesmente quem você é, se for mãe seja mãe naquele momento, se for amigo seja amigo naquele momento, acolha a dor do outro, acolha mesmo, abrace, abrace com muita força, dê muito apoio emocional porque muitas vezes é um momento muito delicado para muitas pessoas. É possível também você encontrar apoio de uma Ong, de alguma rede de pessoas vivendo com HIV, é muito legal buscar o serviço de saúde próximo a sua casa para poder se informar com os médicos sobre o vírus, evitar qualquer tipo de discriminação, como por exemplo separar talheres, toalhas, copos, são coisas que a gente vê que acontece e são coisas que a gente não precisa mais passar por isso, é muito doloroso para alguém sofrer discriminação desse nível. 
Muitas pessoas ligam a descoberta da doença ao suicídio, eu mesmo já ouvi de muitos amigos a frase “Se algum dia eu descobrir que tenho Aids eu me mato”, como podemos mudar essa ligação?
R: Precisamos celebrar a vida todos os dias, e como diria o Herbert Daniel que eu citei, “Viva a vida”. É importante resgatar isso, ter em mente que a descoberta do vírus não é sinônimo de morte, é sinônimo de vida, é mais uma oportunidade que você tem para continuar vivendo, para se tratar, para buscar cuidados, cuidar de si mesmo, valorizar a vida, e é isso que as pessoas precisam saber, elas precisam quebrar seus tabus que tem acerca da Aids. O trabalho de formiguinha que a gente faz de conscientização, de divulgação das questões ligados ao HIV e a Aids, de romper todos esses estigmas que cercam a epidemia. É importante para que as pessoas percebam de fato o que é viver com HIV e não ficarem criando fantasminhas que levam para um lado mais triste com relação a depressão e a tristeza. 
Quais são seus objetivos e sonhos para o futuro em relação a tudo que nós conversamos ? 
R: O meu desejo e meu sonho é que a gente viva um momento de mais compartilhamentos no Brasil, que a gente possa aprender a conviver melhor com as diferenças e as diversidades, que a gente possa ter uma sociedade que proteja e limite-nos pelo meio ambiente, pelas pessoas que pisaram aqui primeiro, pelos indígenas, que a gente possa respeitar a natureza, entender que somos partes dela, e que a gente consiga superar esse momento em que o ódio, a discriminação e os estigmas estão escancarados. Mas, acredito que isso veio a tona para que a gente possa lidar com eles, efetivamente romper com esse tipo de energia no mundo.