Bissexualidade não é indecisão, é orientação

Palavras a serviço da desordem

Por Stella Carvalho

Por muito tempo a linguagem tem significado prisão. As palavras têm prestado serviço ao ódio e à opressão. A ordem é: calar. Evitar que os vocábulos se unam em direção à liberdade do ser, à liberdade dos corpos, à existência de corpAs. A nossa voz causa medo e apavora o status quo e o seu intrínseco estático. Estamos aqui para mudar isso, a poesia está aqui para mudar isso. É nosso dever enquanto seres vivas – que têm o direito à vida negado – apropriarmo-nos das palavras para recriar sentidos e ecoar os nossos clamores. Poesia nada mais é do que contar e encontrar com quem contar. Precisa ser. Refúgio e não exílio. Ataque e não lamento. Escreveram tudo errado, escreveremos de novo. Até frisar. Até conturbar a ordem.

Desalmada

quanto menos alvo você é,
mais alvo você vira
quanto menos certo você é,
mais certo a bala te atira
quanto menos cru você é,
mais a vida te crucifica
mas esqueceram de canonizar
não dá pra santo não
santo a alma descansa
a sua nunca vão deixar respirar
é só ligar o jornal,
a primeira coisa que sua mãe vai notar:
“Travesti assassinado, conhecido como Stella.
Nome de registro, Wagner Walter Gonçalves de Carvalho
filho.”
que pai não quis criar
esse sempre esteve presente
o seu presente era açoitar
de herança só te deixou o nome
nunca teve amor para dar
nunca deixou sua alma respirar
“mas você não está se precipitando?
quanta vida ainda pra trilhar”
veja só,
millany
bruna
dandara dos santos
e tantas outras
que nomes nunca vão lembrar
semana passada mesmo,
aos gritos de bolsonaro,
mais uma nanã teve que carregar.
mas a VEJA de São Paulo soube bem noticiar
“Após briga, travesti morto a facadas”
só esqueceram de ler nas entrelinhas
NUNCA DEIXAREMOS SUA ALMA DESCANSAR.
a polícia investiga o fato
quem acredita?
quem se compadece?
quem acredita? QUEM SE COMPADECE?
o que você faria?
uma travesti agredida na sua frente
em pleno centro de uma capital do nordeste.
QUEM SE COMPADECE?
o auto já foi escrito
já está traçado
é mais que certo
não há apelo à nossa senhora
que livre nossa alma de arder nesse inferno
esse aqui é o meu inferno
a bíblia nunca acertou tanto
fomos lançadas num lago de fogo
que arde como enxofre
quem domina é uma besta e um falso profeta
“Eles serão atormentados dia e noite,
para todo o sempre.”
apocalipse 20:10
quem sabe numa nova tradução
eles não corrijam pra elas, né?
afinal foram tantos arco-íris avanços
fico até impressionada
que minha alma não consiga respirar
que minha alma não consiga passar da porta de casa sem caminhar cada passo à espera de uma briga, um grito, um assédio, uma bala a atravessar minha alma não consiga passar da porta de casa sem caminhar cada passo à espera de uma briga, um grito, um assédio, uma bala a atravessar minha alma não consiga passar da porta de casa sem caminhar cada passo à espera de uma briga, um grito, um assédio, uma bala a atravessar minha alma não consiga passar da porta de casa sem caminhar cada passo à espera de uma briga, um grito, um assédio, uma bala a atravessar

minh’alma.

 

      

SEM TÍTULO – 01

escuro como deve ser

imaginei eu e você

puxando aquele cemitério

trocando a trilha sonora da vida

apagando amy winehouse

e escutando nina

tocando um ao outro e nos dando vida

poesia feita com

a pele

o lápis

a tinta

retinta

de mãos dadas travando obstáculos

pra quem sempre foi da noite

nunca gostou muito do claro

à exceção do ultravioleta

espelha em nossa melanina

algo muito maior do que amor

é coisa de preto

e de quem de África se predomina.

      

SEM TÍTULO – 02

escrevo poemas para a ilusão

promessas de um amor

que só existe na ficção

ou para outrem

de diferente feição

o meu eu-lírico é a dor

o sua companheira a solidão

talvez um dia eu encontre

musa que gere inspiração

por enquanto vou escrevendo

o amor é uma branca ilusão

 

      

       

 

As fotografias compõem o trabalho de Even Caroline “A voz do negro na construção de identidades”, que, segundo a autora, “consiste na criação de ensaios fotográficos experimentais, nos quais buscou-se fazer a intertextualidade entre fotografias e poesias com recorte racial. O projeto tem como proposta utilizar a linguagem fotográfica como ferramenta de incentivo à literatura marginal, visando despertar novos olhares sobre a discussão racial. As fotopoesias tiveram como base textos de escritoras negras de Sergipe, com o objetivo de contribuir na divulgação dessas artistas do estado.”