Uma análise das dificuldades e desafios do acesso e permanência de pessoas trans no ensino superior

Palavras a serviço da desordem

Bissexualidade não é indecisão, é orientação

Por John Santana

Não é novidade para ninguém que a letra B da sigla LGBTQ diz respeito às pessoas bissexuais. Mas, o que ainda é complicado de se entender é quem essas pessoas são e o porquê de não se enquadrarem nos demais itens da abreviação. Para muitos, as pessoas bis inventaram a orientação e tratam o assunto como conveniência, como algo momentâneo. E, não raramente, associam o fato a estigmas ultrapassados e preconceituosos. Eu, por exemplo, já ouvi que esse grupo é formado por “viados encubados” ou “sapatões indecisas”. E não, cara. Não são. A bissexualidade existe, sim, e está presente em toda a sociedade – assim como os demais grupos. Forçá-los à invisibilidade é uma das piores torturas.

Para muitos estudiosos de orientação sexual e identidade de gênero, das pessoas LGTBQs, os bissexuais são uma das que mais sofrem preconceito, porque ele vem tanto da sociedade quanto da própria comunidade que os integra. E isso não é uma opinião vazia, sem fundamento. Um estudo levantado pelo American Institute of Bisexuality (AIB) revela que pessoas que se identificam como heterossexuais têm mais atitudes negativas sobre bissexuais — sobretudo com os homens bissexuais — do que têm quanto a gays e lésbicas. Em outras palavras: héteros têm mais preconceitos contra bis.

A mesma pesquisa diz que, mesmo dentro da comunidade LGBTQ, os bissexuais são ignorados, incompreendidos e, não poucas vezes, alvos de chacota e escárnio. O estudo conta, ainda, que as piores minimizações e discriminações vêm de dentro da comunidade gay, “alimentada pelos estereótipos de que pessoas bissexuais estão mentindo para si mesmas e para os outros, estão confusas e não merecem confiança”.

E não é só isso. Nós excluímos e invisibilizamos esses nossos parceiros quando insistimos em manter uma linguagem pobre, ultrapassada e opressora.  E esses comportamentos cotidianos, são expostos num estudo da Organização Não-Governamental, Bisexual Resource Center, de Boston, que enumera alguns pontos prejudiciais à inclusão das pessoas bis na luta LGBTQ. “Chamar bissexuais de ‘aliados’, excluindo-os de uma comunidade que deveria integrá-los; o uso de linguagem não-inclusiva, como casamento gay ou casal gay e casal lésbico, mesmo quando um bissexual compõe o casal; rotular erroneamente como gays, lésbicas ou heterossexuais pessoas que se declararam bis ou determinar a sexualidade da pessoa considerando apenas o sexo do seu companheiro ou companheira”.

Ainda de acordo com a AIB, muitos bissexuais não saem do armário por estarem em relacionamentos com alguém do gênero oposto e que ainda não é aberto à sua orientação.  Outra pesquisa realizada nos Estados Unidos em 2013 relata que “apenas 28% das pessoas que se identificavam como bissexuais falaram que eram abertas quanto à sua sexualidade”. O número é tão alarmante que a Comissão de Direitos Humanos de São Francisco, Califórnia, chamou os bissexuais de “uma maioria invisível que precisa de recursos e apoio”.

Essa invisibilidade, meu povo, acarreta problemas ainda maiores, inclusive ligados à saúde dessas pessoas. Então, gente, vamos entender – de uma vez por todas – que a marginalização e discriminação que a comunidade bissexual sofre na sociedade reflete também na saúde dos seus membros. O apagamento bissexual leva muitas pessoas a evitarem exames ou a mentir sobre o histórico sexual. E, de novo, repito: isso não é papo sem fundamento. As pessoas bissexuais – assim como as transexuais e travestis –, quando comparadas a heterossexuais, lésbicas e gays, têm maiores taxas de ansiedade, depressão e outros distúrbios de comportamento, assim como é maior a incidência do uso de tabaco. Além de, ainda segundo estudo da AIB, estarem mais propensas a doenças cardíacas e cânceres. 

Tudo isso sabe por quê? Porque você insiste em excluir uma amiga ou amigo bi. Por, em sua mente fechada, acreditar que essa pessoa ainda está em dúvida sobre sua sexualidade e, um dia, se definirá como gay, lésbica ou hétero. E não, amiguinho, esse dia não vai chegar. Respeite e acolha a pessoa bi da forma que ela é. Assim como, com você, ela fez.