Another day, another fight

Quando falamos em superação, sou remetido a algo que conseguimos deixar para trás e seguir em frente. Em minha vivencia, como pessoa queer, não acho que superação seja a palavra certa para dizer que conseguimos passar pelas dificuldades. Levamos nossa existência conosco e não tem como superar isso, sustentar quem somos é a nossa dificuldade. Para alguns de nós, “superar” é uma façanha a ser realizada todos os dias.

Aprendi isso desde de cedo, fui uma “criança viada”, do tipo que na primeira oportunidade estava usando as roupas de minha mãe, gostava de bonecas, vivia correndo por aí brincando de fada e se espelhava nos ícones pop dos anos 90/2000. Desde de minha mais longínqua memoria, minhas vivencias estão entrelaçadas a processos de homofobia. Por ser como eu era logo fui enquadrado como viadinho, baitola, bicha ou qualquer referência a gays que estivesse na mídia da época. Cresci com homens (adultos) gemendo e gesticulando obscenidades para mim (sim, mesmo quando criança), homens segurando em seus volumes e me chamando, mordendo a boca entre outras coisas. Meu corpo e meu ser foram marcados, encaixotados, objetificados e sexualizados (quando eu não tinha a menor consciência de sexo).

O que falei até agora trata-se de vivências minhas, que são comuns a grande maioria das pessoas LGBTs, principalmente as Gays afeminadas e transexuais. Sendo mais especifico, trago na memória um episódio que não foi o mais pesado de minhas vivencias, mas explana a totalidade do que somos obrigados a “superar” e seguir nossas vidas, mesmo com pouca idade.

Quando eu tinha 12 anos, estudava na mesma escola que um primo hetero. Um dia, um amigo dele, que era da minha sala, me contou que ele ficava me chamando de bicha e rindo de mim com os outros amigos dele pela escola. Eu que sempre lidei com essa realidade, já estava acostumado as pessoas rindo e me apelidando, isso não me chocava. Porém, o fato de meu primo estar no meio, me machucou mais do que eu queria admitir na época. Sendo assim eu parei de falar com ele. No dia do aniversário dele, estávamos todos na casa de minha avó (Eu, ele, minha irmã e a irmã dele), eu ainda não estava falando com ele e na hora de brincar eu disse que só brincaria sem ele. Ele ficou com raiva e fez o maior escândalo para uma tia nossa. Tinha dito para ela que queria mudar de escola, que não aguentava mais conviver com a minha presença no colégio, que os amigos dele perseguiam ele, dizendo que ele tinha um primo viado, me chamando de bicha e fazendo chacota dele. Minha tia, chegou no quarto onde eu estava brincando com minha prima e minha irmã e começou a gritar comigo; “O que você quer da sua vida? Você gosta, não é? Você gosta disso! Pois eu vou levar você ao centro de assistência a AIDS, para você ver como é a realidade do que você quer ser! Eu vou te levar e você vai ver como você vai ficar! ”. Diante disso, eu já estava catatônico, congelado pelos gritos e por tudo que foi gritado, e chorei, chorei até doer, e ainda dói lembrar disso. Quando sai do estado de choque, proferi minha primeira ameaça de suicídio. A partir disso e por muito tempo pude perceber que para pessoas como eu o suicídio era uma opção recorrente. Consegui passar por isso, sobrevivi. Sempre foquei que um dia isso tudo passaria e eu teria liberdade para ser de todas as formas que eu quisesse ser, as coisas melhoraram, mas até hoje espero esse dia chegar. Até lá, another day, another fight. É necessário que tenhamos uma extrema capacidade de resiliência, de certa forma, acredito que pessoas LGBTs tem essa capacidade superdesenvolvida.

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