“Com tanto homem no mundo você escolheu ficar com uma mulher”

Me chamo Tainah e sou bissexual. Até chegar nessa aceitação eu passei por alguns preconceitos, esses sofridos tanto pela família como também por instituições que compõem a sociedade.

Fiquei com a primeira menina aos meus 14 anos. Ela, por sua vez, se tornou a minha primeira namorada. Eu estudava numa escola bastante tradicional daqui de Aracaju, daí você já imagina como os meus colegas já me olhavam e me tratavam.

Em 2005, com 15 anos, eu ainda mantinha esse relacionamento, sem me assumir para os meus pais e familiares, até que a mãe de uma amiga minha da época descobriu e foi na casa da minha namorada e contou tudo para os pais dela. Em seguida foi ao colégio onde eu e a filha dela estudávamos e contou tudo para o coordenador da época e para várias pessoas do setor de coordenação. Para o meu azar ou sorte, não sei, o marido da minha prima era assistente de coordenação e estava presente quando a mãe da minha amiga chegou com várias histórias tenebrosas, falando que eu tinha que sair do colégio, porque a filha dela não poderia estudar no mesmo lugar que eu.

Bom, o marido da minha prima contou tudo para minha mãe, fora do ambiente escolar e toda a minha família se reuniu para conversar comigo. Nessa “reunião” estavam presentes algumas tias minhas, a minha prima, minha avó, minha mãe e logicamente EU. Fui obrigada a abrir os meus SMS, minhas conversas do MSN e mostrar pra todos eles, foi terrível, eu me sentia humilhada, um lixo mesmo, sabe?!

Ouvi também da minha família algumas barbaridades também, do tipo “Com tanto homem no mundo você escolheu ficar com uma mulher”, “Você sujou o nome da nossa família”, “Não quero que você pise mais na minha casa”, “Você tá louca, precisa de um médico”, “Vou te levar pra igreja”, enfim, até aí já estava bem difícil para mim. Mas não bastou.

No dia seguinte eu tinha aula e fui inocente pra escola achando que seria só mais um dia e que a vergonha e humilhação ficariam em casa. Só que não. Ao chegar na escola fui direcionada para a sala de coordenação, onde fui informada que eu iria trocar de turma, que eu não poderia entrar em contato com nenhuma das meninas que as mães foram lá pedir o meu afastamento e, para piorar, todas as vezes que eu precisasse utilizar o banheiro uma servente me acompanharia. Olha, foi bem difícil, mas logo depois eu saí dessa escola e minha vida seguiu normalmente.

Tempos depois fui descobrindo que eu não era homossexual, comecei a me aceitar mais, ter menos vergonha de quem eu sou e partir pra uma conversa com a minha mãe. Foi bem difícil e ainda é um pouco, mas hoje ela respeita e me aceita.

Olhares tortos eu acredito que vou receber por algum tempo ainda, mas hoje com 28 anos, eu não ligo mais, tudo aquilo que me aconteceu com 15 anos me fortaleceu e me fez querer mostrar para as pessoas que não tem nada de errado em amar um pessoa do mesmo sexo. Antes eu tinha vergonha de ser quem eu era, hoje tenho muito orgulho de quem sou.

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