Como um estupro afetou minha vida

Me chamo João, tenho 20 anos, e irei compartilhar a minha experiência com o estupro.

Gostaria de começar dizendo que não quero generalizar, cada ser é um ser, e cada ser reage como lhe convém, aqui irei expor a minha história e como eu reagi. Eu tinha 7 (sete) anos de idade quando aconteceu, foram duas pessoas que me abusaram, um adolescente que na época tinha 16 (dezesseis) anos, e, um “cara” de 40 (quarenta), não irei contar todos os detalhes, pois não acho necessário, irei falar das coisas que me marcaram.

Primeiro: foi minha primeira experiência sexual, sendo que na época eu nem sabia o que era relação sexual, e, sabia muito pouco sobre sexualidade em geral. O fato da minha “primeira vez” ter sido um estupro me marcou muito até mais ou menos os meus 15 (quinze) anos, eu me sentia muito mal, e, como eu sempre fui muito mais amigo de garotas, eu mentia sempre, e dizia que minha “primeira vez” seria super especial e com a pessoa certa (aquela famosa romantizada de adolescente), e isso me machucou até o dia que eu percebi que o estupro não foi uma experiência sexual, que aquilo não foi nem de perto uma relação sexual, e sim, que aquilo foi uma violência, um abuso.

Quando comecei a tratar como uma violência, tudo mudou, eu me senti melhor comigo mesmo, porém sentia raiva das pessoas que me estupraram, e, hoje percebo que sentir raiva, tristeza, angústia, só faz mal a mim, eu ainda tenho sensações ruins quando me lembro de quando e como aconteceu, mas é momentâneo, eu decidi não permitir que o fato de eu ter sido estuprado parasse minha vida, ou atrapalhasse o jeito que eu vivo.

Segundo: a autoculpa, enquanto eu estava sofrendo o abuso um dos estupradores me disse que tudo aquilo era minha culpa, que ele não conseguiu se controlar, e, que eu era bonito demais, por isso eu estava sendo estuprado. Até os meus 10 (dez) anos eu não via sentido nisso, mas, certo dia, pensei sobre o que ele falou, e, eu me senti culpado, eu sentia que não poderia contar a ninguém, pois, eles iriam me julgar, iriam me culpar por tudo, como eu fazia, mas não, agora sei que não seria desse jeito, eu era uma criança, e mesmo se eu tivesse sido estuprado hoje, não seria minha culpa, nunca foi, e nunca será.

Após me descobrir e me assumir como homossexual aos 14 anos, eu senti outro medo ao pensar em contar pra alguém, o medo de que para os outros o estupro fosse o “causador” da minha homossexualidade, sou de uma família muito religiosa, por isso tive e tenho esse medo até hoje, eu me arrependo todo dia por não ter essa coragem de contar aos meus pais, seria muito melhor ter contado antes, logo após ter acontecido, mas eu tive medo, eu tenho medo.

Quero deixar um pequeno um conselho para o final, se você já foi estuprado ou sofreu algum tipo de assédio, não tenha medo ou vergonha de contar para alguém, de ir atrás dos seus direitos como ser humano, eu sei que nessa sociedade machista e misógina é muito difícil achar essa coragem, são tantos olhares e julgamentos em cima da vitima, mas, como o próprio substantivo diz, você não tem culpa, não importa o que as pessoas digam, VOCÊ NÃO É CULPADO, tenha sempre isso em mente, foi você quem sofreu uma violência, e nunca se esqueça, o fato de ter sido estuprado, não define quem você é como pessoa.

Quero Contar!