Eu, mulher sapatão!

Falar da nossa história é um tanto pesado e difícil, pois somos obrigados a fazer um apanhado de tudo que vivemos e isso as vezes fere, mas carrego comigo de que quanto mais eu puder contar minha história, mais meninas e meninos que passam por coisa semelhante possam ser encorajados a fazer o mesmo e enfrentar o sistema.

Nasci em Propriá, interior do Estado, fui criada por minha mãe, meus padrinhos e meus avós, tinha e tenho até hoje essa porção de gente para dar justificativas dos meus passos, sempre fui muito quieta, calma, feminina, sendo um baque para todos eles quando eu me entendi como lésbica.

Aos 11 anos dei meu primeiro beijo em um menino, fui levada por minhas amigas que já namoravam e eu não, foi um sensação ruim, mas eu pensei que tudo passaria, era questão de acostumar, aos 13 percebi que não iria mais tentar ter qualquer tipo de relação com meninos já que aquilo não me fazia bem e me deixava com um vazio sem tamanho, ouvi com atenção pela primeira vez a palavra SAPATÃO, vinda de minha madrinha, eu não sabia o que significa e fui perguntando, até entender que eu era/sou SAPATÃO.

Aos 15 anos começou todo o meu enfrentamento para viver minha sexualidade, namorava uma menina de mesma idade, minha irmã descobriu, contou para minha prima, que contou para minha tia e finalmente chegou aos ouvidos da minha mãe – que marcou uma conversa com todos para saber se era verdade -, antes de chegar em casa naquele dia de transtornos em meados de junho de 2006, eu tive que enfrentar os amigos – que me apoiaram de forma incondicional -, e finalmente chegar em casa. Foi uma das conversas mais difíceis que tive até hoje, os preconceitos que enfrentamos são mínimos perto do preconceito que sofremos vindo de quem temos como exemplo, durante a conversa de família para entender a minha vida, minha mãe perguntou: é isso mesmo Paula? A sociedade não aceita isso, você vai sofrer! Eu só tive coragem de falar: Sim!

Com aquele sim eu assinei uma sentença, eu quebrei os padrões da minha família, vi brigas, vi doenças, vi distúrbios, sofri chantagens, e me reprimi, pois tudo que estava acontecendo diziam que era culpa minha, nunca apanhei durante os 15 anos anteriores, quando assumi minha existência eu apanhei, de quem eu mais amo.
Hoje tenho 28 anos, contando daquele dia se passaram 13 anos, de brigas, de dias que pareciam não ter fim, de violências internas e externas, de um psicológico abalado, mas firme, vivo hoje uma calmaria que me faz chorar de felicidade, de ter sido uma menina de 15 anos firme com as minhas escolhas, firme em peitar as estruturas de uma família ligada a padrões, de ver meus amigos me amando sem condições e carregar os melhores por perto, hoje eu tenho orgulho de contar e narrar minha história, mesmo tendo consciência de que o mundo não é fácil, de que as pessoas são cruéis, mas como em tudo, existe o bom e o bem.

Essa sou eu, prazer, Ana Paula Machado, mulher, sapatão, jornalista, resistente e forte!

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