Finalmente entendi que eu não tinha um problema e aceitei ser quem sou

Meu nome é Haron, eu tenho 27 anos e agora eu posso dizer com toda certeza que vivo a minha plenitude. Vivo a minha melhor fase, porque deixei de brigar com a minha natureza. Finalmente entendi que eu não tinha um problema e aceitei ser quem sou. 

E foi difícil. Foi bem difícil. Voltando bem pro início: eu nunca gostei de futebol, mas adorava novelas, sempre fui tímido, vivia em casa estudando, enfim, eu nunca fui o menino padrão. Lembro que lá na pré-adolescência, muito antes de sentir QUALQUER COISA, entre piadinhas e comentários, parentes e amigos me apontavam como gay – Mas como assim gay, gente? Eu nunca tinha olhado para outro cara na vida!

A primeira vez que me senti atraído por outro cara foi aos 21 anos. Aí dei início a uma batalha interna. Eu não queria aceitar que outros homens me atraiam. Aquilo não poderia acontecer. Não comigo. Mas ao mesmo tempo em que negava eu me via curioso. Comecei a frequentar as salas de bate-papo do Uol. Descobri que era imensa a quantidade de pessoas na mesma situação que eu, se escondendo atrás de apelidos e buscando companhia nas salas de bate-papo. Nunca cheguei a sair com ninguém, a coisa ficava restrita a sacanagem na webcam. Por um tempo isso me satisfez, mas eu comecei a ver que as pessoas que estavam ali não conversavam de verdade e o que realmente importava para elas era gozar no final. Quantos centímetros? Era a primeira mensagem em toda conversa iniciada. Essas coisas me fizeram correr do bate-papo.

Guardei o que sentia e quando fiz 23 anos decidi que precisava ter certeza do que queria. Foi quando instalei o Tinder. Sempre usei nome e fotos reais, não ocultava o rosto, mas tinha uma estratégia para me esconder: A noite, eu mudava as preferências para procurar por homens e quando ia dormir as redefinia.

No Tinder eu dei mais sorte. Era tudo diferente do bate-papo. O primeiro cara com quem dei macth era 6 anos mais velho, engajado nas causas sociais, entendia a minha situação e foi super paciente. Pela primeira vez consegui conversar com alguém sobre o que estava acontecendo. Ficamos durante um tempo, porém eu ainda não estava confortável com a minha sexualidade. Hoje não temos contato frequente, mas essa figura foi muito importante. A essa altura a cabeça estava uma confusão. Ponto um: Eu também gosto de meninas e pensava que passaria a ser rejeitado por elas, porque sempre ouvi o quanto elas achariam nojento se descobrissem que os companheiros delas se relacionavam com outros homens. Ponto dois: O medo. Medo de não ser aceito em casa, de não ter uma relação normal, de viver sozinho, de ser agredido caso saísse na rua com um companheiro, medo de virar motivo de gozação. Existia também a preocupação com o julgamento dos outros. Até certo momento a forma como as pessoas passariam a me ver pesou mais até do que o medo de sofrer agressão. Isso porque sempre fui visto na família e por toda a vizinhança como o menino exemplar: aquele que tinha boas notas na escola, que tinha um estágio já no ensino médio, não se metia em confusão etc. Eu via que meus pais se orgulhavam de tudo isso. Todas essas coisas faziam com que eu me cobrasse muito. E se de repente eu aparecesse beijando outro homem, que tipo de exemplo eu seria? O que falariam para os meus pais? Eu não seria mais motivo de orgulho para eles. Essas preocupações acabavam comigo.

Eu acredito que cada um tem o seu momento. E acho que com o amadurecimento consegui desapegar de algumas coias. O que eu posso dizer é que conviver com mais pessoas LGBT, ver artistas, Youtubers, materiais na internet foi libertador. Me trouxe mais segurança. Aos 26 consegui me assumir para mim mesmo e aceitei que gosto de pessoas, independente de gênero.

A até pouco tempo eu achava que minha orientação era um problema só meu, que eu deveria viver como bem entendesse e que não tinha obrigação de conversar ou dar explicação sobre isso para ninguém. Continuo com a certeza de que não devo explicações, mas hoje acho que estava sendo um pouco egoísta. Eu devo falar, sim. Eu devo me posicionar compartilhar conteúdos, apoiar a causa, sim. Se eu estiver com um companheiro eu devo sair na rua com ele, sim. Isso é necessário, isso é fortalecedor não apenas para mim, mas para aquelxs que hoje enfrentam as mesmas questões que eu enfrentei lá atrás. Mostrar que não somos únicxs, que existem muitxs outrxs trabalhando, amando, fazendo sucesso, construindo coisas é empoderar, é armar essas pessoas com coragem.

 O que posso dizer é  que por mais difícil que as coisas possam parecer não se pode viver com medo. Não é saudável nem é justo com você.

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