MULHERZINHA!

Quando, de alguma forma, partes do meu corpo e espontaneidades da minha tez denunciavam a minha identidade (ou o que supunham dela) aos meu pais e às pessoas ao meu redor, logo surgiram as complicações: nunca me ensinaram, à altura dos meus 6 anos de idade, que era algo ruim ser chamado de mulherzinha.
Eu saía da escola sozinha, atravessava a rua para chegar em casa – era uma cidade pequena, no interior da Bahia – e, naquele momento, eu me sentia uma estrela. Cada passo perfeitamente rebolado era realçado com o casaquinho roxo amarrado na minha cintura e, por algum motivo que parecia inexplicável pra mim naquele instante, eu era uma mulherzinha. Os meus colegas gritavam: MULHERZINHA! E, no auge da minha inocência, eu me senti bem. Eu nunca me senti tão bem. Os holofotes estavam em mim, eu venerava a minha mãe, a minha mãe era uma mulher, e como 1 + 1 são 2, mulherzinha só pode ser o melhor elogio do mundo e estão todos gritando para mim! “MÃE, EU SOU UMA MULHERZINHA”.
Minha mãe assistia minhas cenas de retorno ao lar todos os dias da porta de casa, cuidando sempre para que eu não me acidentasse, ela sempre foi uma mulher muito carinhosa e preocupada com os seus filhos, até escutar um deles dizer que é uma mulherzinha, até se sentir exposta por toda a classe do seu filho para toda a minúscula cidade que ela tinha um tal daqueles filho-mulherzinha. “É VOCÊ QUE ELES ESTÃO CHAMANDO DE MULHERZINHA? HEIN, RESPONDE?”.
Prefiro que as amnésias protetoras da infância se encarreguem do fato de deixar bem longe as cenas que seguiram o diálogo. Mas é previsível. Só não é o foco da questão. Eu não quero que seja e não deixarei que seja. Minha mãe estava certa. Eu não sou uma mulherzinha. Sufixos são dispensáveis para denominar quem sou, pois já sei bem aonde encontra a raiz da minha essência: mulher.
Zona.
Travesti.

Stella Carvalho, SE.

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