O medo de assumir minha identidade

Desde criança minha mãe sempre soube que eu iria ser diferente, eu comecei demonstrar aos 3 anos de idade, ao 5 eu já estava bem gatinha feminina. Comecei a sofrer a pressão da família, apanhei muito de tias, e avós por conta da minha tal viadez, eles sempre diziam que era pro outra coisa, mas eu ouvia eles falando, quando crescer vai ser viado. Cresci sabendo quer ser viado era algo ruim, mas eu não era somente o tal viado, tinha algo mais em mim que eu não sabia identificar, algo que não encaixava com meu corpo. Fui crescendo o desejo de ter seios, cabelo grande, era o maior sonho! Lembro que quando criança a vontade de ter cabelo grande era tanta que eu botava camisas na cabeça pra dizer que era cabelo. Minha mãe se separou do meu pai, por muitas das vezes quando minha mãe ligava para meu pai e dizia que queria conversar sobre os filhos (Eu e meu irmão) ele solta sempre com piada homofóbica, uma que ele usava muito era “É macho ou é machiche). Aos 15 anos eu já não tinha tanto contato com meu pai pro conta da grosseria e do preconceito, que eu sofria da família eu chegava pra contar e ele não acreditava em mim, foi então que me afastei e só ia de vez em quando. Aos 17 anos eu me assumi gay pra minha mãe, olha no início foi uma barra, e que barra, mas eu estava muito feliz de saber que eu estava sendo quem sou. Mas ainda faltava algo, eu tinha crises de ansiedade, chorava dias e noites, tinha algo que queria sair de dentro pra fora. Era um terror sair de menino, eu odiava roupas masculinas, principalmente folgadas, eu queria fazer várias coisas pra ficar o mais feminina possível, o tempo foi passando e aquela mulher dentro de mim já não aguentava mais e queria gritar para o mundo. Aos 18/19, comecei a ler sobre gênero, cada descoberta eu chorava, pois eu estava tendo a certeza que eu era uma mulher transexual, mas e agora como contar pra a minha mãe, como falar pra ela, tentei, tentei e não conseguia, passei mais dois anos lutando e resistindo pra acreditar que eu era uma mulher trans, não era dúvida. Era medo! Eu lia tantos casos de assassinatos de travesti e eu pensava, eu posso ser uma delas. Aos 21 anos em maio de 2018, eu já não aguentava mais, já saía de menina, porém escondida, cheguei e falei pra a minha mãe. Minha mãe foi magnífica comigo, perguntou se era isso realmente que eu queria, Eu repondi que sim, que eu já não estava mais aguentando, eu não suportava mais esconder, ela me disse: “Eu te amo de qualquer jeito, seja de homem ou de mulher, você saiu de mim”. Eu fiz á orgulhosa, Não chorei, mas depois escondida kkkk desabei! Pronto, foi dada a largada pra a felicidade! Eu estava muito feliz. Em julho pedi pra ela escolher meu nome, eu era conhecida como Mayara (May), mas não me incentivava muito, assim que eu falei, ela me chamou de louca. Aí falei mainha, Vou retificar meu nome e eu quero que a senhora escolha meu nome, eu tô falando sério! Uma semana antes da retificação, ela Disse: Seu nome será Quésia Santos Souza! Na hora eu perguntei, porque Quésia, ela respondeu: “O nome é esse, se quiser!” Agora de nome retificado sou mais feliz do que já era!

O mercado de trabalho pra uma Travesti é escasso! Não sabem nos atender, mesmo sabendo do nosso gênero, tratam a gente no masculino e nos humilham, restando apenas a prostituição. As pessoa julgam, mas a gente bate de porta em porta, atrás de emprego, mas o simples fato de você ser uma travesti não te contrata, na maioria das vezes dizem que não tem vaga, mesmo você sabendo que tem vaga, ou pegam seu currículo e quando você vira as costa joga no lixo. Já aconteceu comigo! Iai vem as coisas pra pagar, se manter, pagar aluguel, sem emprego, só nos resta a rua! Eu nunca fui pra a rua, aos 17 anos, comecei a fazer bicos em buffet e restaurante e estou até hoje fazendo esses bicos, mas nada fixo, mas é sempre aquela coisa, tenho que ficar escondida, travesti não pode trabalhar aparecendo para o publico, atendendo um cliente no restaurante por exemplo, fico sempre nos bastidores! Isso dói!

Hoje, sou uma mulher feliz, casada e de bem com a vida! Supero obstáculo todos os dias, pois a vida de uma travesti negra no Brasil, Não é fácil, principalmente agora nesse governo! Lutemos juntes e de mãos dadas, para que saíamos vencedores dessa batalha!

– Quésia Sonza

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