Quando me descobriram…

Eu estava sozinho.

Eu estava dançando sozinho, escondido, quando fui flagrado por meu pai, que reclamou do meu jeito de dançar, porque era “vergonhoso”;

Eu estava brincando sozinho com bonecas que eu mesmo confeccionava escondido, quando minha mãe disse que aquilo era “maricagem”;

Eu estava em casa, desenhando vestidos “de princesas” sozinho, quando minha avó paterna gritou que preferia ter um neto ladrão a um neto “viado”;

Eu estava cantando sozinho, quando o meu tio me mandou engrossar a voz, como se eu fosse capaz;

Eu estava andando na rua sozinho, quando algum desconhecido passou e me chamou de viado, bambi, bichinha, mulherzinha, florzinha, frutinha, etc.

Eu estava sentado sozinho na arquibancada da escola, porque o professor de educação física determinava que os meninos jogariam futebol e as meninas vôlei, enquanto eu não conseguia me encontrar e nem era aceito entre os meninos, que frequentemente faziam chacota de mim;

Eu estava sozinho em pensamentos, num show qualquer, enquanto minhas amigas beijavam garotos e eu mantinha os meus desejos ocultos;

Eu estava sentado em um ônibus sozinho, quando um homem sentou-se ao meu lado, concluiu que pelo meu jeito eu iria querer masturbá-lo e colocou o pênis para fora enquanto passou a mão na minha perna;

. . .

Eu estive sozinho, desde os meus primeiros anos.

Quando me descobriram, tentaram me mudar. Achando que deveria, eu lutei para me tornar alguém que jamais iria conseguir ser. Então, sozinho estive durante todo meu processo de entendimento, da descoberta à aceitação, porque eu não podia falar, agir e ser, sem ser discriminado.

Quando me descobriram eu estava doente, mas não por ser quem sou. Estava doente de tristeza, frustração, medo, preocupação… e de solidão, porque não havia um só lugar em que eu não fosse repudiado por ser diferente e porque eu sempre tive que esconder tudo que me afligia, o que me tornava doente.

Algo fazia eu me sentir um lixo, querer a morte, pensar em suicídio. Até que descobri que estes eram sintomas da homofobia, mas essa doença nunca esteve em mim.

Hoje eu sou “descoberto”. Assumidamente homossexual.

Não mais sozinho, mesmo não tendo uma família onde eu possa ser eu mesmo.

Não mais doente, apesar de todo mal que tenta me derrubar todos os dias (desde a simples “piadinha”, até o risco de ter a vida tomada).

Eu encontrei a cura e a felicidade na aceitação;
Encontrei uma família nas minhas amizades;
Encontrei força nos meus iguais;
Encontrei motivação na solidão.

. . .

Homofobia é doença, homossexualidade não.

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