Se eles soubessem…

Eu descobri que era gay com 14 anos. Os meninos da minha turma viviam me chamando de viado o tempo todo. Naquela época eu negava com todas as minhas forças! Eu não sabia o que era ser gay, nem nunca tinha tido atração por ninguém. Mas a possibilidade de ser viado começou a me aterrorizar. Lembro de rezar para não ser, de me forçar a ver prazer em mulheres.
Essa dúvida e o desejo, que cresciam junto com meus primeiros impulsos sexuais, me levaram a ruas desertas, estradas de terra, a estranhos na rua, onde perdi a virgindade com homens.
Antes de dar meu primeiro beijo eu já tinha feito muita coisa. Com pessoas que eu nem sequer sabia o nome. Eu me sentia muito sujo, muito culpado e muito confuso. A única certeza era que ninguém jamais poderia saber.
Aos 16 dei meu primeiro beijo, era um homem de 30 anos. Mais desses casos de beira de estrada.
Aos 19 eu contei aos meus amigos que era gay. Foi quando sai da minha cidade no sertão de Sergipe e fui viver na capital.
Hoje com 22 anos percebo os efeitos da forma torta com que lidei com minha sexualidade: me percebo muitas vezes banalizando meu corpo, e como fiz do sexo um entorpecente para não lidar com todo o resto.
Mas todo o resto é sempre muita coisa.
Quando volto para minha cidade eu tento voar abaixo do radar sabe? Não digo que sou hétero, inclusive se perguntassem eu jamais mentiria. Mas não consigo ser eu plenamente. Eu tenho muito medo. É muito triste conviver com eles, rir e ouvir o quanto sentiram sua falta e se perguntar o tempo todo “E se eles soubessem? Seria igual?”.
O que eu sei é que eu nunca vou desistir de mim. Eu sempre vou viver. Independente do apoio deles. Afinal de contas eu já passei por muita coisa sozinho.
Somos muitos. E juntos somos fortes.

Quero Contar!