Segure-se em seu coração

A pintura na parede do quarto insiste em lembrar quem sou. Quem sou eu? Eu poderia dizer que sou filho de pais incríveis, dizer que amo o que estudo, que amo meu trabalho, que amo meus amigxs, dizer quais são minha qualidades e meus defeitos, mas ainda assim não respondi a pergunta; então quem sou eu? Na infância fui cheio de mimos, na adolescência corria atrás de uma vingança sem sentido pelas mágoas causadas por meu pai, na juventude perdoei, agora, na fase adulta busco pelo autoperdão. Aos 13 anos eu corria contra quem eu sou, não entendia nem desejava ser gay, aos 15 finalmente aceitei minha condição sexual, a essa altura meus pais já estavam separados e eu começava meu calvário na autopunição. Aos 16 anos comecei a questionar-me se essa minha condição sexual afetou o casamento de meus pais e se afetava a vida de minha mãe, então foi quando entrei em uma tristeza profunda a qual não tinha fim. Na escola timidez, em casa um silêncio, até o dia da tentativa de suicídio por ingestão de medicamentos e vinho… a única coisa que ganhei nisso foi um sono profundo por 12 horas, ainda não foi a hora. Em minhas memórias sempre fui um colapso nervoso pronto a explodir em qualquer momento e na ansiedade encontrei um modo de andar por um fio. Após a tentativa de suicídio eu percebi que comecei a me coçar involuntariamente e sem fim, não é uma simples coceira que dá e passa, é algo que vem nos picos de ansiedade, é algo que me vem como punição até a pele sangrar. A primeira vez foi por me achar culpado pela separação de meus pais, depois por achar que magoaria minha família pela minha sexualidade, depois por magoar amigos e depois sem sentido, só pelo prazer de me punir. Por fim por magoar a pessoa que mais amei, o garoto que foi meu parceiro por uma ano e meio, e até agora estou tentando parar de me martirizar por terminar algo, simplesmente pelo fato de que em algum momento eu não me via mais feliz no relacionamento. Algumas pessoas me vêm sorrindo e dizem que fui um monstro só por ter terminado algo, mas olha só, existem ciclos que precisam serem fechados antes de desmoronarem por algo pior. Foi quando as crises pioraram. Respirar tornou-se dolorido, tem dias que meu corpo simplesmente dói internamente sem razões, então por favor, não julgue as pessoas, pois só elas entendem as de suas ações. A minha última crise não foi o suficiente com arranhões de unhas, era um sofrimento que necessitava de algo maior e foi a primeira vez que pensei em usar objetos cortantes. Controlei-me para não deixar cicatrizes então utilizei uma tampa plástica, eu não sabia do poder de uma e o quanto ela poderia ser maravilhosa em me dar prazer em troca de sangue, mas nunca ache que sacrifícios sejam a resposta para isso. Muitas pessoas LGBTQI estão passando por problemas relativos aos meus nesse exato momento, você não tem noção do quanto música alta, bebidas, vômitos, cortes e/ou sangue podem servir como drogas para nossa sobrevivência diária. É difícil ser o mais feliz da turma quando as luzes internas estão apagadas, mas é meu esforço diário. Eu faço de minha agenda algo ocupado para me manter vivo, para respirar… para não afundar. Todas essas questões giram em torno de uma sexualidade, algo que de alguma maneira me fez estar aqui. A militância tem me ensinado muito, principalmente a saber que não estou sozinho. Eu tenho cuidado para evitar cicatrizes, então se você me ver despido talvez nunca saiba o que está debaixo da pele nova, tenha cuidado para não magoar-me, pois eu terei cuidado em não te magoar, já que isso me levaria automaticamente a outra crise. Você não sabe como é acessar minhas piores memórias e entrar em um colapso de vazio, entrar em um local o qual eu tenho que sair, mas no fundo não quero. Você não sabe como é estar doente e não querer se curar para continuar nesse ciclo de dor. Você não sabe como é fácil para mim perdoar aos outros, mas nunca chegar ao autoperdão por achar isso uma utopia. Hoje completo 23 dias sem causar arranhões em minha pele, eu tenho procurado estar perto dos amigos, aos poucos a falar de minhas crises e entender o que tem acontecido nos últimos anos e só assim poder lutar contra. Se você chegou até o fim dessa leitura foi porque você de alguma forma você conseguiu me ver, de alguma forma você conseguiu enxergar minhas cicatrizes internas, foi porque de alguma forma você me fez um carinho (acredite eu estou recebendo ele e agradecendo). Enquanto você fazer algo que ama, a cada dia que você rir de verdade, a cada minuto de respiração não esqueça que muitos LGBTQI perderam e outros muitos estão perdendo sua vida. Segure-se em seu coração para manter-se de pé, pois ele é a única saída de todas essas bombas que estamos recebendo diariamente. Crie um império para você, um local onde você sinta-se seguro, mas não esqueça, nenhum império é construído sozinho, então ligue as luzes de seu farol para pedir ajuda. Acredite, todos esses olhos que estão te julgando não vão te ajudar, então corte a língua dos bastardos e utilize a sua para gritar, pois eu sei que nos dias em que eu me forçar a gritar estarei a salvo, sei que passarei mais um dia sem arranhões.

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