Sou mulher, de periferia e sapatão

Sou mulher, de periferia e sapatão. Sou a única homossexual da família (até onde eu sei), e por isso o âmbito que mais sofro é o familiar. É difícil escrever sobre algo que me machucou e ainda machuca tanto. Me entendi lésbica aos 15 anos, e antes disso eu sempre forcei uma heterossexualidade que nunca existiu dentro de mim, nas rodinhas com amigos, nos role, e dentro da família – mais uma vez a família – eu era obrigada a fingir gostar de homem para me relacionar. Tenho família religiosa, alguns deles totalmente longe de informações que lhes façam abrir a mente e compreender isso, pelo menos é dessa forma que eu penso. Já sofri muito na rua, e foi a partir do momento que decidi sair de mão dada com uma garota que eu entendi, entendi que eu tava mudando o que a sociedade estava acostumada a ver. Nunca tive abertura para me assumir dentro de casa e sempre que tento sou impedida. Acredito eu, que a luta que enfrento cotidianamente não é tão grande quanto a que sofro em casa. Mesmo assim, tenho consciência que, estou sujeita a qualquer tipo de agressão na rua. Vivemos numa sociedade totalmente machista e eu sei que incomodo muito, porque além de mulher, eu amo uma outra mulher. Alguns dos episódios que passei de lesbofobia em sociedade: um deles foi ser atacada moralmente dentro de um ônibus por vários homens, por estar acompanhada de uma garota, e em seguida eles jogarem objetos em mim pela janela. Demorei muito para me aceitar, odiava rótulos, até eu entender que eu carregava uma luta, uma luta que eu deveria e devo enfrentar. Hoje, aos 19 anos, sigo com dificuldades de voz nos espaços e aceitação familiar, mas não paro, a visibilidade é a única coisa que não me faz desistir. Por que desistir? porque a gente pensa loucuras nessas horas, a gente se sente impotente e sofre calado. Eu sou apenas uma das mulheres lésbicas que sofrem por amar, e tenho muito privilégio por não ter sido expulsa de casa ou outra coisa. A desconstrução é diária, nossa voz é silenciada o tempo todo, por isso eu sei que só a luta muda a vida. De forma sucinta esse é meu relato, esse é um terço de algumas dores, mas a luta segue e eu não paro.

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